quarta-feira, 10 de março de 2010

Caio Fernando de Abreu

‘Sabe que o meu gostar por você chegou a ser amor pois se eu me comovia vendo você, pois se eu acordava no meio da noite só pra ver você dormindo, meu Deus como você me doía de vez em quando. Eu vou ficar esperando você numa tarde cinzenta de inverno bem no meio duma praça, então os meus braços não vão ser suficientes pra abraçar você e a minha voz vai querer dizer tanta mas tanta coisa que eu vou ficar calada um tempo enorme só olhando você sem dizer nada, só olhando e pensando meu Deus como você me dói de vez em quando.’

terça-feira, 2 de março de 2010

Rita Apoena

Quando um paizinho dorme para sempre, ele não atende mais o telefone, não aparece no portão, não adianta chamá-lo pelo nome ou dizer que é dia de futebol.

É que quando um paizinho dorme para sempre, ele fica espalhado no mundo, em todas as coisas pequenas, e a gente precisa de muita delicadeza para encontrá-lo de volta.

No começo, a gente só o encontra nos suspiros da mãe, nos olhos do cachorro esperando no portão, na cadeira vazia, no remendo do armário, no prego segurando o quadro, na garrafa de vinho, pela metade.

Aos pouquinhos e devagar, a gente começa a encontrá-lo nas alegrias do mundo, no vôo das cotovias, no desenho das nuvens formando barquinhos e caravelas, numa pessoa sem mágoa, na toalha sem nódoa, e até quando felizes nossos olhos vão se enchendo d'água...

segunda-feira, 1 de março de 2010

De qualquer forma, poderia tê-lo amado muito. E amar muito, quando é permitido, deveria modificar uma vida – reconheceu, compenetrado.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

posso ser leve como uma brisα ou forte como umα ventaniα,
depende de quando e como você me vê passαr.

domingo, 31 de janeiro de 2010

Nunca disse que seria fácil. Disse apenas que compensaria.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Cem anos de solidão

“...Úrsula se perguntava se não era preferível se deitar logo de uma vez na sepultura e lhe jogarem a terra por cima, e perguntava a Deus, sem medo, se realmente acreditava que as pessoas eram feitas de ferro para suportar tantas penas e mortificações.

E perguntando e perguntando ia atiçando sua própria perturbação e sentia desejos irreprimíveis de se soltar e não ter papas na língua como um forasteiro e de se permitir afinal um instante de rebeldia, o instante tantas vezes desejado e tantas vezes adiado, para cortar a resignação pela raiz e cagar de uma vez para tudo e tirar do coração os infinitos montes de palavrões que tivera que engolir durante um século inteiro de conformismo.

– Porra! – gritou.

Amaranta, que começava a colocar a roupa no baú, pensou que ela tinha sido picada por um escorpião.

– Onde está? – perguntou alarmada.

– O quê?

– O animal! – esclareceu Amaranta.

Úrsula pôs o dedo no coração.

– Aqui – disse.”

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Colombina


Meu amor se compõe do amor de todos dois
Hesitante entre vós, o coração balanço:

O teu beijo é tão doce, Arlequim...
O teu sonho é tão manso, Pierrot...

Pudesse eu repartir-me e encontrar minha calma
dando a Arlequim meu corpo...e a Pierrot, minha alma!

Quando tenho Arlequim, quero Pierrot tristonho,
Pois um dá-me prazer, o outro dá-me o sonho!

Nessa duplicidade o amor todo se encerra:
Um me fala do céu...outro fala da terra!

Eu amo, porque amar é variar e,
em verdade, toda razão do amor está na variedade...

Penso que morreria o desejo da gente
Se Arlequim e Pierrot fossem um ser somente,


Porque a história do amor só pode se escrever assim:
Um sonho de Pierrot
E um beijo de Arlequim!